O advogado do futuro

AutorMaria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha; Romeu Costa Ribeiro Bastos
Páginas382-394

Maria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha. Mestra em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade Católica Portuguesa. Doutora em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professora Universitária. Procuradora Federal.

Romeu Costa Ribeiro Bastos. Mestre em Engenharia de Sistemas pelo Instituto Militar de Engenharia. Doutor em Estratégia pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Professor Universitário.

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“Não é o mais forte ou o mais inteligente que sobreviverá; e sim, o mais adaptável”.

Charles Darwin

Neste início de século, que pode ser chamado de a Idade da Revolução

Tecnológica, as mudanças radicais, principalmente a Internet, transformam o mundo num lugar menor e mais complexo. A globalização é um fato. Soluções tradicionais são deixadas de lado e novas habilidades devem ser adquiridas por todos aqueles que desejam o sucesso em qualquer profissão.

Shakespeare escreveu na peça Henrique VI: “the first thing we do, let's kill all the lawyers".1 Mas os advogados têm evitado este destino e devido a sociedade ocidental ser baseada na obediência à lei, o que se verifica mundialmente nos últimos trinta anos é um aumento considerável dos integrantes da profissão legal. O Brasil assistiu a partir da década de setenta o crescimento das Escolas de Direito e a graduação excessiva de bacharéis. Entretanto, o que se constata, é que apenas uma pequena parcela da população tem acesso ao atendimento legal.

O perfil dos advogados também mudou consideravelmente: são cada vez mais jovens, minorias étnicas e um grande número de mulheres ingressaram na profissão, mas, apesar dessa expansão, um fator preocupante é a deficiência na formação dessesPage 383 profissionais. Cite-se como exemplo a OAB/SP, em 2004, ter reprovado cerca de 92% dos candidatos inscritos no exame da ordem.

Fato é que, o operador da lei não pode tornar-se um ser markoviano2. Ele deve estar preparado para o futuro, com vistas ao passado, muito embora seus principais inimigos sejam os dogmas e a nostalgia. Neste encontro determinístico, ele tem que estar pronto para enfrentar desafios sociológicos, ambientais e, principalmente, tecnológicos.

Nos Estados Unidos da América a preocupação com o futuro da profissão legal é objeto de reflexões. Neste ano de 2006, vários seminários sobre o assunto vem sendo realizados a exemplo do ocorrido no Texas, cujo título foi “Reserving your place in the future of the legal profession”.

Esta discussão deverá chegar ao Brasil em pouco tempo e, a propósito do tema, várias perguntas se colocam: Como será a atuação dos advogados e das firmas de advocacia no futuro? Como formar um advogado de excelente qualidade? Como prover o atendimento legal a todos os segmentos da população? No presente artigo os autores se propõem a tentar respondê-las, fazendo prospecções futurísticas para dez ou vinte anos, por meio de cenários.

Inegavelmente, conhecer o futuro será sempre um desejo da Humanidade. Michel Godet3 afirma: “todos aqueles que pretendem predizer o futuro são impostores, pois o futuro não está escrito em parte nenhuma, ele está por se fazer. O futuro é múltiplo e incerto”. De que maneira, portanto, poder-se-ia pensar a respeito, se é impossível prevê-lo?

Um modo seria escolher o que se deseja e tomar decisões para a condução das preferências. Contudo, olhar para o tempo vindouro é ver incertezas. Como, então, decidir hoje que profissão seguir? Como estará o mundo em uma década?

Concernente ao profissional da lei, como será o relacionamento com os clientes? Quais os instrumentos que poderão ser utilizados no exercício da profissão?

Para solver tais indagações mister definir o cenário onde o advogado e as firmas irão atuar. O estudo de cenários é uma técnica antiga e bem conhecida, utilizada em diversas aplicações.

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O cenário define-se como uma forma de desenvolver futuros alternativos baseados em diferentes combinações de hipóteses, dados e tendências.4

Existem três tipos de cenários:

- Cenários possíveis: todos que puderem ser imaginados

- Cenários realizáveis: todos passíveis de ocorrer e que levam em conta os condicionantes do futuro

- Cenários desejáveis: são subconjuntos dos possíveis, mas não são, necessariamente, realizáveis.

FIGURA I - cenários

[VEA LA FIGURA EN EL PDF ADJUNTO]

Pode-se dizer, então, que cenário é uma descrição narrativa do futuro, internamente consistente e que mostra uma data ou um período específico, ou seja, é um retrato plausível do futuro. Importante frisar que não é uma predição e, sim, uma possibilidade.

Existem na literatura vários cenários projetados; um deles, o apresentado pela CIA no relatório: “Global Trends 2015: a dialogue about the future with nongovernmentPage 385 experts”5 apontou dados concernentes à América Latina. Segundo o documento, em 2015, vários países daquele continente alcançarão grande prosperidade como resultado da economia global, da revolução das informações e da baixa taxa de natalidade. O progresso da democracia e o fortalecimento das instituições aumentarão a confiança dos investidores externos. Dois países se destacarão no continente - Brasil e México -, tornando-se a voz da região que continuará, entretanto, vulnerável a fatores externos. Países mais pobres, especialmente os Estados Andinos, ficarão sujeitos às demandas populares, ao crime, corrupção e tráfico de drogas.

Ademais, Venezuela, México e Brasil se tornarão importantes produtores de petróleo, o Mercosul e Alca estarão mais organizados e as infovias propiciarão o crescimento do mercado e o aumento de oportunidades para novos investimentos, empregos e para a eficiência das corporações.

Por fim, o distanciamento entre os Estados mais prósperos e democráticos dos demais que não alcançarem tais condições, acentuar-se-á.

Em outro artigo intitulado “World out of balance-Three scenarios for 2015”6, de autoria de Paul A. Laudicina, são apresentados três cenários por meio dos quais demonstra-se que os governos tendem a se transformar em corporações de gerenciamento da saúde, educação e aplicação das leis. Propugna o autor, que os Estados Unidos e a China se destacarão no cenário econômico, secundados por Brasil e Índia; que a segurança das comunicações digitais permitirá a globalização total e que 29% da população mundial será de classe média. Aponta, num cenário pessimista, que as questões ligadas ao terrorismo, bem como os conflitos no Oriente Médio, na Ásia Central e no Cáucaso, persistirão.

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