Ana Maria Fernandes Pitta: mulher, nordestina, psiquiatra antimanicomial e militante da Reforma Psiquiátrica.

AutorSilva, Ana Paula Procópio da

1) Ana Pitta nos conte de sua trajetória acadêmica, política e profissional.

Nasci em Salvador, Bahia, filha de pai pedagogo e desenhista no sistema educacional da minha cidade, e mãe "do lar", a mulher mais sensível e inteligente que convivi de perto. Sempre estudei em escolas e universidades públicas, onde também me politizei. O terrível golpe militar de 1964 me encontra aos 13 anos já implicada com questões sociais, com as minhas limitações de conhecimento e indignação contra as desigualdades de chances de sobrevida digna que já percebia, me iniciando no movimento estudantil secundarista contra as injustiças sociais evidentes. O que se acentua e radicaliza quando ingresso no ensino médio, colegial à época, e vou estudar no Colégio Estadual da Bahia - Central, verdadeira escola de política e costumes que formou uma geração de líderes da esquerda no movimento estudantil secundarista e universitário que atravessou a ditadura militar com resiliência e coragem. Perdemos alguns colegas nos porões da ditadura, mas aprendemos como poucos, noções de solidariedade e firmeza de caráter, naqueles anos de chumbo. Medo, desconhecer muitas coisas, não nos afastava de desempenhar todas as tarefas que o movimento estudantil e mais tarde a militância clandestina nos impunha na luta por democracia, justiça social e liberdade. Aos 18 anos após vestibular concorrido ingresso na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia e logo a seguir no Partido Comunista Brasileiro. Duros anos do AI-5 em que aprendemos a lutar! O partido exigia que fôssemos bons alunos. Fui monitora de Psicologia Médica e Psiquiatria, sendo a escolha da Saúde Mental e da Psiquiatria desde ali definida. Epidemiologia e Saúde Pública também me despertaram interesse em pesquisa na graduação e com um jovem professor, Sebastião Loureiro, vindo de um doutorado no exterior, realizo minha primeira pesquisa epidemiológica de campo que publicamos na Revista Baiana de Saúde Pública anos depois.

2) O ano de 2021 circunscreve os 34 anos do Congresso Nacional de Trabalhadores da Saúde Mental realizado em Bauru, que é considerado o marco inicial do Movimento da Luta Antimanicomial, e os 20 anos da Lei 10.2016. Considerando esse lastro histórico gostaríamos que falasse sobre o seu envolvimento nesses processos que constituem uma psiquiatria alternativa e posteriormente antimanicomial no Brasil.

Permita-me um acerto de contas: se em 1987 estávamos realizando um Congresso de Trabalhadores de...

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