O consumismo e suas implicações para a adolescência

AutorShely Castilho de Ataíde Albuquerque
Páginas509-528

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Apresentação

Em tempos de grandes preocupações acerca da degradação do meio ambiente, a abordagem de temáticas sobre o estímulo ao consumo consciente se faz necessária e urgente. Na contramão desse processo de conscientização, temos a mídia e sua excessiva veiculação de propagandas que exercem grande influência em crianças e adolescentes, estimulando o consumo desenfreado e a predileção por bens materiais. Essa onda consumista, no entanto, pode causar não apenas impactos negativos ambientais, mas também impactos negativos sociais, como o aumento da criminalidade, dentre outros. O presente artigo busca investigar os impactos causados pelo consumismo no meio ambiente, entre os adolescentes e como a educação pode contribuir para reverter este quadro.

1 Introdução

Em uma época na qual a pessoa tem sua importância mensurada pelos bens materiais que possui e não pelo seu caráter e valores morais, o consumo desenfreado é uma realidade. Calçados de marca são cobiçados, assim como roupas de grifes famosas e aparelhos eletroeletrônicos, dentre outros objetos que não se caracterizam como artigos de primeira necessidade. Estas são situações comuns na chamada sociedade do consumo.

A mídia veicula, incansavelmente, propagandas na televisão, imprensa e internet, dizendo o que a pessoa deve comprar para estar na moda, para

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ser alguém "bacana" e "descolado". É como se o poder de consumo a fizesse pertencer a um clube seleto e exclusivo, do qual, para se participar, é preciso apenas uma coisa: consumir. Com esse consumo desenfreado, sofre o meio ambiente, explorado até o limite pela ganância humana, e sofrem os jovens, levados a crer que o mundo gira apenas em torno do consumo e da posse de bens materiais.

Este trabalho propõe discussão a respeito do consumismo e seus prejuízos, tanto ambientais e, especialmente, no que se refere aos adolescentes. Por intermédio de pesquisa bibliográfica, procurou-se levantar as principais discussões sobre o assunto. Além do levantamento bibliográfico, depoimentos de profissionais que lidam com jovens de baixa renda serviram para corroborar uma das informações encontradas durante a pesquisa: a de que o desejo de consumir pode estimular a criminalidade entre os adolescentes.

2 Os impactos ambientais do consumismo

O meio ambiente não está livre dos efeitos do consumismo. A sociedade do consumo também tem sua parcela de culpa na degradação ambiental e no aquecimento global. Segundo Costa e Ignácio:

O mundo atual é dominado pelo espírito capitalista que vangloria o consumo, estando entranhado no coração da sociedade moderna, o qual o poder de consumo é o ápice do ideal da sociedade, onde a arte de consumir é o padrão, e quanto mais se consome, maior se torna o desenvolvimento e a estabilidade econômica de cada Estado, estando esse modelo de vida altamente capitalista levando o mundo atual para um colapso ambiental. Cada vez mais se produz e mais se consome, estando a sociedade moderna condenada a um grande ciclo vicioso, onde se deve consumir para produzir e produzir cada vez mais para se consumir. Cada vez mais os produtos ganham menores tempos de vida úteis, e quando quebram são extremamente difíceis de consertar, afim de cada vez mais impulsionar o consumo e a produção, pois sempre sairá mais barato e prático comprar um produto novo, do que conservar ou arrumar o produto antigo. Além é claro, também de sempre o mercado impulsionar modelos novos dos mesmos produtos mudando pequenas coisas, ou dando pequenos retoques, desvalorizando e

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desmerecendo os produtos antigos que muitas vezes ainda estão

em boas condições de uso.1Assim, pode-se compreender que o consumismo provoca diversos malefícios, inclusive ao meio ambiente. Basta observar o exemplo dos eletrônicos: os aparelhos ficam obsoletos em pouco tempo, pois novos modelos com funcionalidades diferenciadas são lançados em curtos espaços de tempo e, por isso, são trocados com frequência, sendo descartados, muitas vezes, na natureza, liberando substâncias nocivas ao meio ambiente que, dentre outros problemas, causam a contaminação do solo e lençóis freáticos. Poucas são as empresas que oferecem ao cliente uma logística reversa, que busque os aparelhos inutilizados para o descarte correto e reciclagem dos produtos que vende. Além dos prejuízos provocados pelo lixo gerado pelo consumo, a produção dos bens materiais também causa impactos, seja devido à utilização massiva das matérias-primas, seja devido ao uso de grandes volumes de água, energia elétrica e combustíveis:

Para garantir tamanha produção faz-se necessário cada vez mais que a sociedade retire matérias-primas da natureza a fim de conseguir atender a grande quantidade da demanda pelo consumismo. Isto causa um efeito devastador no meio ambiente, pois sempre em nome do progresso e da economia, destroem-se matas, florestas, rios, e animais. Além da poluição do ar, das águas, do mar, do solo, seja com produtos tóxicos, seja com a deposição de resíduos sólidos. A natureza é extremamente frágil em relação à interação humana, pois o homem sempre buscou e sempre buscará nela meios para satisfazer suas vontades essenciais, porém o consumismo gerado pelo espírito capitalista faz com que o mesmo homem retire da forma irracional recursos não necessários a sua existência, a fim apenas de garantir satisfação e bem estar, usando como pele de cordeiro o discurso de impulsionar a economia. O desenvolvimento da sociedade está claramente insurgido numa crise, uma vez que se desenvolve a fim de garantir melhor qualidade de vida daqueles que a pertencem, porém se esta mesma sociedade agindo de forma irracional não se preocupa com os estoques de reservas

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naturais, com os locais de deposições de resíduos, e quase sempre poluindo o próprio meio ambiente onde se encontram.2Assim, tendo em vista os problemas causados pelo consumo em excesso, é preciso encontrar o equilíbrio por meio do consumo consciente:

O consumo consciente provavelmente surgiu a partir do reconhecimento de que os recursos naturais são finitos e de que a promoção ativa do desenvolvimento sustentável do planeta é imprescindível à sobrevivência da espécie humana, obrigando assim a humanidade a repensar o modo como se relaciona com o mundo em que vive. (...) Diante desta situação, identificam-se os primeiros indivíduos que buscam consumir de maneira mais consciente, deixando de serem "cidadãos consumidores" para serem "consumidores cidadãos". Esse processo inclui a busca do equilíbrio entre as necessidades individuais, as possibilidades ambientais e as necessidades sociais. Nesse sentido, o consumidor passa a considerar os aspectos de eficiência do produto ou do serviço ao lado dos impactos sobre o meio ambiente e na sociedade.3Algumas empresas já estão se atentando para a necessidade de estimular o consumo consciente e, com isso, criando programas de responsabilidade social para tentar amenizar os problemas que elas mesmas ajudam a causar:

A responsabilidade social das empresas consiste na integração voluntária das preocupações sociais e ambientais por parte das empresas nas suas operações e na sua interação com a comunidade. Além disso, seria uma forma de levar outras instituições a colaborar com o Estado na busca da justiça social, ao invés de ficar esperando que o estado tome providências nessas áreas.4

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Em outras palavras:

(...) a função social da empresa implica que os bens de produção (da empresa) devem ter uma destinação compatível com os interesses da coletividade. A obrigação do proprietário desses bens é pô-los em uso para realizar a produção e a distribuição de bens úteis à comunidade, gerando riquezas e empregos. Uma empresa geradora de riqueza e de emprego cumpre sua função social. Porém este fato não implica na responsabilidade social desta empresa, que é mais abrangente.5

Desta forma, sobre o consumo consciente, é possível concluir que:

(...) o consumo passou a ser um hábito a fim de satisfazer necessidades supérfluas. Desta forma a sociedade passou a buscar maneiras de conciliar o progresso econômico e a preservação dos recur-sos ambientais. E a utilização desenfreada dos recursos naturais ocasionou impactos globais que fizeram vários Estados se unirem em busca de soluções para este enorme problema, antes que ocorra o esgotamento dos recursos naturais existentes. A sociedade deve procurar maneiras de se desenvolver de forma sustentável, a fim de garantir seu progresso sem prejudicar o meio ambiente e comprometer seu futuro. Pois o desenvolvimento sustentável é o ápice do equilíbrio entre o homem, a natureza e a economia, onde a geração atual pode usufruir o meio ambiente sem comprometer futuras gerações. Desta forma surge a fim de salvar o mundo atual a figura do desenvolvimento sustentável, que busca alcançar o meio ambiente saldável e ecologicamente equilibrado, para que a socie-dade possa viver com uma maior qualidade de vida. Para isso a relação de consumo exacerbada deve ser urgentemente freada e substituída por uma relação mais consciente onde seja priorizado a relação do consumo e do meio ambiente.6

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Entretanto, apesar da inegável importância das empresas em relação ao consumo e à responsabilidade social, a grande questão que permeia este trabalho não diz respeito aos impactos ambientais causados pelo consumo em excesso, mas sim aos impactos sociais gerados pelo consumismo, principalmente para os adolescentes.

3 Os impactos do consumismo na adolescência

O presente trabalho optou por investigar as implicações do consumismo para a adolescência, mas para compreender como o mecanismo do consumo funciona, é necessário retroceder um pouco e explicar sobre o consumo na infância:

Ninguém nasce consumista. O consumismo...

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