O giro linguístico

AutorDardo Scavino
Ocupação do AutorProfessor Titular de Filosofia
Páginas1-62
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I – O GIRO LINGUÍSTICO
1. Não existem fatos, somente interpretações
O problema da verdade
Por volta do fim do século XIX, Gottlob Frege havia pro-
posto que o sentido de uma proposição dependia da sua con-
dição de verdade. Mas que queria ele dizer com isso? Quando
alguém diz “chove”, por exemplo, compreendemos esta asser-
tiva porque sabemos o que acontece quando a proposição é
verdadeira, ou melhor, quando efetivamente chove. Se al-
guém pergunta-nos que quer dizer o enunciado “chove”, de-
veríamos responder-lhe com outro enunciado que descreves-
se esse acontecimento, ou seja, que definiria a proposição
“chove”. “Chove = cai água do céu”, por exemplo. O que para
Frege significava, justamente, dizer quais eram as condições
de verdade desse enunciado: se cai água do céu, então o enun-
ciado “chove” é verdadeiro. Pois bem, se as expressões “cho-
ve” e “cai água do céu” têm a mesma significação, é porque
ambas referem-se à mesma coisa, ainda quando o façam de
modo diferente. Assim, “o vencedor de Jena” e “o perdedor
de Waterloo” são proposições que têm um mesmo referente:
Napoleão. O que muda é o sentido, a maneira de apresentar
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DARDO SCAVINO
ou a perspectiva. O mesmo acontece com os enunciados: “es-
trela matutina” e “estrela vespertina”, dois sentidos diferen-
tes para se referir a uma mesma coisa, conhecida com o nome
de “planeta Vênus”. No entanto, e isto é primordial, a expres-
são “planeta Vênus” não é o referente daquelas proposições.
Não, o referente é sempre uma realidade exterior ao discurso,
algo que somente se pode apontar com o dedo ou com essas
palavras que os linguistas chamam de dêiticos, do tipo “isto,
isso, aquilo”. Há algo, um x, ao qual se referem as expressões
x é o planeta Vênus”, “x é a estrela matutina” e “x é a estrela
vespertina”. Há um indivíduo cuja existência a história verifi-
cou e ao qual se referem as proposições: “x é Napoleão”, “x é
o vencedor de Jena” e “x é o perdedor de Waterloo”.
O próprio Frege ver-se-á obrigado a introduzir algu-
mas modificações nesta proposta inicial, sobretudo a partir
das objeções feitas pelo seu discípulo inglês Bertrand Rus-
sel em uma carta de 1902. Mas o certo é que sua tese se con-
verteria no ponto de partida tanto das Investigações lógicas
de Edmund Husserl como do Tractatus logico-philosophicus
de Ludwig Wittgenstein, textos que dão origem a duas das
correntes filosóficas mais influentes deste século: a fenome-
nologia e a filosofia analítica. Pois bem, alguém poderia per-
guntar-se por que a lógica de Frege virou tão importante. A
resposta é simples: acontece que esta semântica da verdade
parecia haver resolvido o problema que remontava à Crítica
da razão pura de Kant e que concernia à fundamentação do
discurso científico.
Este filósofo, recordemos, reconhecia dois tipos de juí-
zos lógicos: os analíticos (A=A) e os sintéticos (A=B). A lógica
tradicional, de ascendência aristotélica, apenas aceitava como
universais e necessários, ou válidos a priori, os juízos analíti-
cos. Por exemplo: “O homem é mortal”. Porque bastava exa-
minar o conceito de homem para saber que se tratava de um
ser mortal, posto que era um animal ou um ser vivo. Mas este
saber não implicava nenhum progresso no conhecimento,
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A FILOSOFIA ATUAL: PENSAR SEM CERTEZAS
simplesmente explicitava certos saberes implícitos no concei-
to. Os juízos sintéticos, por outro lado, os que aumentavam o
conhecimento de uma coisa (“A terra gira ao redor do Sol”,
por exemplo), baseavam-se na experiência e não eram, desde
a perspectiva aristotélica, universais e necessários, simples-
mente porque o predicado “girar ao redor do Sol” não se po-
deria deduzir a partir de uma análise do conceito de “Terra”.
Entretanto, a ciência moderna caracteriza-se, antes de tudo,
por esse tipo de enunciados. Toda a Crítica da razão pura de
Kant se propunha então resolver este problema: como são
possíveis os juízos sintéticos a priori?
Um século mais tarde, Frege parecia ter concebido
uma lógica que se ajustava perfeitamente às exigências kan-
tianas. A expressão “estrela matutina” não se pode inferir de
uma simples análise do conceito de “estrela vespertina” e,
no entanto, dado que ambas se referem a um mesmo objeto,
a um mesmo x, podemos transformá-las em equivalentes ou
substituí-las: “estrela matutina = estrela vespertina”, ou seja,
A=B. Pois bem, esta igualdade ou esta substituição era pos-
sível se e apenas se o referente x existisse e fosse idêntico a
si mesmo. Estas condições, no entanto, eram bastante pro-
blemáticas. Em primeiro lugar: que significava “existir”?
Para Russell e os positivistas lógicos, dizer que algo “existe”
significava que poderia ser verificado pela experiência sen-
sível, o que se podia ver, tocar, ouvir. Por isso os enunciados
“O rei da França é calvo” e “O rei da França não é calvo”
seriam igualmente falsos, simplesmente porque não existe,
ao menos nesse momento, o rei da França. Em síntese, a
ciência era, para estes filósofos, fundamentalmente empíri-
ca. Entretanto, o aspecto sensível das coisas é algo que, jus-
tamente, muda ou não se mantém idêntico a si mesmo. Se-
gundo estes pensadores, no entanto, dizer que existe uma
substância que permanece invariável além das modificações
acidentais da coisa seria voltar ao discurso metafísico que se
tentava evitar, já que não podemos verificar a existência

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