O Mercado do Leite e Agricultores: a qualidade em questão

AutorMarcia da Silva Mazon
CargoProfessora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC
Páginas46-67
http://dx.doi.org/10.5007/2175-7984.2016v15n33p46
46 46 – 67
O mercado do leite e agricultores:
a qualidade em questão
Marcia da Silva Mazon1
Resumo
Questionando a ideia da qualidade como elemento neutro, o artigo analisa aspectos da cons-
trução do mercado de leite no Brasil destacando a disputa entre diferentes atores. Abordamos o
processo de globalização, a chegada das multinacionais ao país, tão bem como as disputas em
torno da qualidade.
Palavras-chave: Estado. Mercado. Leite. Agricultores familiares. Padrões de qualidade e
segurança.
1 Introdução
Questionando a ideia da qualidade como elemento neutro o artigo anali-
sa aspectos da construção do mercado de leite no Brasil destacando a disputa
entre diferentes atores. Abordamos o processo de globalização, a chegada das
multinacionais ao país, tão bem como as disputas em torno da qualidade.
O referencial teórico desta análise é inspirado por Durkheim e Weber, au-
tores retomados por Bourdieu, Fligstein e Zelizer. Estes autores enfatizam as-
pectos culturais conformadores dos mercados. As instituições econômicas são
socialmente constituídas; não podem ser analisadas sem o apelo à história e
seu contexto. Weber sugere as sociedades modernas baseadas na troca mercan-
til como o local da troca pacíca; das regras estáveis propiciadas pelo direito
econômico (WEBER, 1972/2004). Bourdieu avança esta proposta mostrando
que aquilo que se considera paz, o que se considera justo, muda conforme
diferentes ambientes cognitivos (BOURDIEU, 1982/2008).
Bourdieu (2000) observa, entre outros, o mercado de casas próprias na
França. Ele não existia como preferência dadade aquisição que as habitações
1 Professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC. Coordenadora do NUSEC – Núcleo de
Sociologia Econômica. E-mail: marcia.mazon@ufsc.br
Política & Sociedade - Florianópolis - Vol. 15 - Nº 33 - Maio./Ago. de 2016
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eram alugadas por um valor baixo e subvencionadas pelo Estado francês. Se-
gundo o autor este mercado emerge como resultado da atuação estatal na
oferta e na demanda (fazendo apelo aos aspectos simbólicos da casa como lar,
previdência na velhice e futuro dos lhos) e pelo momento particular na Fran-
ça em que o Estado passa a ser preenchido por técnicos da área econômica os
quais contribuíram ao performar uma nova preferência. Assim como outros
mercados este se tratou de um arbitrário cultural. O autor destaca aqui como
o Estado ao se construir constrói diferentes mercados2.
A mesma ideia aparece nas investigações de Viviana Zelizer. Analisando
os aspectos de mercabilidade3 de determinados bens a autora mostra como o
seguro de vida passa da lógica da dádiva para a via do mercado. Esta autora
observa também as mudanças no mercado de adoção de bebês no sentido de
uma inversão de signicados dos adotados dentro das famílias, o que implica
em mudanças na sua circulação nos mercados.
Situamos o momento do Estado brasileiro interventor, quando a ação
estatal animou a ideia do leite como parte da dieta e o ponto de passagem para
o neoliberalismo momento da atuação dos supermercados na era da concen-
tração nos canais de distribuição. A partir dos anos de 1990, no Brasil surgem
os reguladores privados; tanto processadores como distribuidores (supermer-
cados) multinacionais chegam ao país pela via dos Investimentos Diretos Es-
trangeiros (IDE). Este processo é identicado por analistas do setor como
algo inexorável e relacionado a um movimento de globalização (REARDON;
BERDEGUÉ, 2002). O leite se transforma em uma commodity acompanhan-
do um processo de especialização (UHT e envasilhamento em embalagem
longa vida) com rápida consolidação e concentração do setor.
O país se aproxima do conito cultural pelo qual passam as sociedades
capitalistas atuais estimuladas a adotar o neoliberalismo pelo estabelecimento
de novas convenções cognitivas e os embates no sentido de alterar seus con-
tornos. Conforme Grun (2007) não é possível reduzi-las às disputas políti-
cas explícitas – modo como comumente analistas interpretam os conitos da
2 O papel do Estado no mercado é destacado por Weber (1972/2004) e Durkheim (1983) e retomado pela teoria
sociológica contemporânea (RAUD-MATTEDI,2005; BOURDIEU, 2000, 1997/2005).
3 Weber afirma a importância das normas sociais ou costume como fonte de regularidade na vida social. Uma norma
considerada vigente e o que a garante é a reprovação do comportamento discordante (WEBER, 2004, p. 20).

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