Notas sobre o trabalho reprodutivo a partir das categorias do feminismo materialista francófono
| Author | Clarissa Cecília Ferreira Alves |
| Pages | 26-93 |
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Este primeiro capítulo se propõe a dar um mergulho nos conceitos
oferecidos pelo feminismo materialista francófono, vertente teórica
feminista que fornecerá as bases para que possamos visualizar as rela-
ções sociais que estruturam o trabalho reprodutivo.
Partindo de seus conceitos, caminharemos para o desenvolvimento
dos contornos da categoria que aqui nomearemos de trabalho repro-
dutivo migrante, forma de trabalho reprodutivo que se manifesta sob a
ordem capitalista, colonial, racista e patriarcal, e que, por esta razão,
servirá de fio condutor das reflexões propostas neste livro.
Aqui se pretende entender como este modo de trabalho é paradig-
mático na atualidade da globalização do capital e do processo de con-
solidação das políticas neoliberais, podendo servir de elemento-chave
no estudo das formas contemporâneas de trabalho, por ser capaz de
articular de modo singular as relações sociais de sexo, classe e “raça”, e
de estar em uma espécie de fronteira entre a exploração e a apropriação,
ambos modos de obtenção do trabalho.1
Entender em que circunstâncias se objetiva o trabalho reprodutivo
migrante poderá nos ajudar na investigação da exploração/apropriação
do trabalho das mulheres empobrecidas e racializadas de regiões peri-
féricas e marginais do mundo capitalista.
Além disso, o trabalho reprodutivo migrante, estabelecido sob o tri-
nômio capitalismo-patriarcado-racismo, tem se tornado o meio/canal
a partir do qual a manutenção material de pessoas e objetos,2 aspecto
1 FALQUET, 2012.
2 Ideia que resume nossa compreensão de trabalho reprodutivo.
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fundamental da reprodução da matéria orgânica do ser social,3 tem sido
distribuída desigualmente no globo, tendo como instrumentos/veícu-
los as trabalhadoras da reprodução social.
O capítulo será, pois, iniciado com a apresentação das principais ca-
tegorias fornecidas pelo feminismo materialista francófono, cujo arca-
bouço analítico será de grande valor para este estudo, e a partir do qual
tentaremos compreender a objetivação do trabalho reprodutivo mi-
grante enquanto forma de trabalho componente da ordem patriarcal.
Em seguida, apresentaremos algumas categorias a serem utilizadas
ao longo desta pesquisa, tais como relações sociais de sexo, consubstan-
cialidade, coextensividade e sexagem, esclarecendo de que modo serão
compreendidas e empregadas.
Por fim, refletiremos acerca do que entendemos por “trabalho repro-
dutivo” e “trabalho reprodutivo migrante”, conceitos centrais e nortea-
dores desta investigação.
Assim sendo, e considerando a precária difusão da perspectiva do
materialismo francófono nos estudos feministas brasileiros, passemos
a seguir a fazer um breve resgate desta abordagem feminista e de seus
principais conceitos-chave, de modo que eles nos auxiliem a com-
preender como a articulação entre as relações sociais de sexo, classe
e “raça” no contexto mundial cria essa figura laboral paradigmática.
. A CONTRIBUIÇÃO TEÓRICA DO FEMINISMO MATERIALISTA
FRANCÓFONO PARA O ESTUDO DO TR ABALHO REPRODUTIVO
O movimento intelectual denominado de feminismo materialista fran-
cófono4 ou radical5 refere-se ao grupo de mulheres que compartilhou de
3 Refere-se à reprodução social da existência humana, que se compõe de elemen-
tos objetivados por meio de trabalho produtivo (meios de subsistência) e trabalho
reprodutivo (manutenção material dos indivíduos e dos meios de subsistência).
4 Essa denominação tem sido mais comumente utilizada, uma vez que o que as
caracteriza é o fato de que estas pensadoras escreviam na língua francesa, mesmo
que possuindo outra nacionalidade, como Paola Tabet, que, embora fosse italiana,
escreveu a maior parte da sua obra em francês.
5 No que se refere ao feminismo francês, essa denominação de radical tem o sentido
de demarcar uma posição teórica que difere tanto daquela que se apoia nos teóricos
da vertente dominante da psicanálise, como daquela que tem como foco principal
a “luta de classes”. O radical é, portanto, empregado no sentindo de “materialistas e
autônomas”. Cf.: FALQUET, 2004, p. 64.
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pensamentos teóricos, políticos e militantes a partir dos debates rea-
lizados em torno da revista Questions Féministes (QF), em 1978, tendo
sido Christine Delphy6 a primeira a defender o conceito de feminismo
que tem por base o materialismo histórico.
A revista Questions Féministes foi fundada por Simone de Beauvoir,
Christine Delphy, Colette Capitan-Peter, Emmanuelle de Lesseps,
Nicole-Claude Mathieu e Monique Plaza, em 1977, e ocupou, des-
de seu início, um espaço respeitável no cenário francês, uma vez que
esse era um momento de auge do movimento feminista na França e
a maior parte dos periódicos feministas existentes à época, diferente-
mente da proposta da QF, possuíam um caráter mais opinativo, com
textos bem-humorados, informativos e de caráter breve.
A Questions Féministes, no entanto, orientou-se, desde sua fundação,
por uma perspectiva de análise mais profunda, com textos densos e de
uma maior complexidade, caracterizando-se, também, durante toda a
sua história, pela abertura dada à publicação de textos de mulheres de
perspectivas teóricas e nacionalidades diferentes da francesa, havendo
uma preocupação em conceder espaço para mulheres latinas, caribe-
nhas, norte-americanas, europeias etc.7
No início da década de 1980, no entanto, em razão de um desacor-
do político relativo ao movimento lésbico radical, ocorre uma divisão
no grupo original, e Simone de Beauvoir, Christine Delphy, Claude
Hennequin e Emmanuèle de Lesseps fundam a Nouvelles Questions
Féministes (NQF), em 1981, mantendo a base teórica radical alia-
da à práxis militante e agregando novas participantes ao grupo nos
anos seguintes. A NQF torna-se, desta forma, precursora de revistas
feministas que surgem nos ambientes universitários franceses ao
longo do tempo.
O feminismo materialista francófono, todavia, esteve por muito
tempo invisibilizado no cenário do debate feminista mundial, muito
embora esta vertente intelectual tenha problematizado questões que
obtiveram muito relevo no pensamento feminista do final do século
XX e início deste. Algumas autoras vinham sendo, por vezes, mencio-
Além disso, embora compartilhem o adjetivo e algumas ideias com as feministas
radicais norte-americanas, as radicais francesas com estas não se confundem.
6 DELPHY, 1980.
7 FALQUET, 2004.
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