Preciso estudar bioética!': mudanças vivenciadas por médicos residentes no enfrentamento da covid-19

AutorInessa Beraldo de Andrade Bonomi e Marcos Paulo De Oliveira Corrêa
Ocupação do AutorDoutoranda em Bioética pela Universidade do Porto. Mestra em Medicina (Ginecologia e Obstetrícia) pela Universidade Federal de Minas Gerais/Mestre em Administração Pública pela Escola de Governo Paulo Neves de Carvalho da Fundação João Pinheiro do Governo de Minas Gerais
Páginas331-360
“PRECISO ESTUDAR BIOÉTICA!”: MUDANÇAS
VIVENCIADAS POR MÉDICOS RESIDENTES NO
ENFRENTAMENTO DA COVID-19
Inessa Beraldo de Andrade Bonomi
Doutoranda em Bioética pela Universidade do Porto. Mestra em Medicina (Ginecologia
e Obstetrícia) pela Universidade Federal de Minas Gerais. Especialista em Auditoria e
Mecanismos de Regulação da Saúde pela Fundação Unimed. Residência Médica em
Medicina Fetal pela Universidade Federal de Minas Gerais. Residência Médica em
Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Municipal Odilon Behrens. Graduada em
Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas Dr. Antônio Garcia Coutinho.
Marcos Paulo de Oliveira Corrêa
Mestre em Administração Pública pela Escola de Governo Paulo Neves de Carvalho da
Fundação João Pinheiro do Governo de Minas Gerais. Administrador pela Universidade
Federal de Minas Gerais. Graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais. Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Bioética (GEPBio).
Sumário: 1. Introdução. 2. A pandemia foi instaurada: o que mudou para os médicos resi-
dentes? 3. A bioética como estratégia de combate no contexto da pandemia. 4. Um estudo
sobre a bioética com médicos residentes no combate contra a pandemia da Covid-19. 5.
Considerações nais. 6. Referências. 7. Anexo 1. 8. Anexo 2.
1. INTRODUÇÃO
O ano de 2020 começou de forma silenciosa, exceto pelas notícias de um novo
surto de vírus que, inicialmente, parecia ser um problema local em Wuhan, na China.
Nos Estados Unidos, a economia estava em expansão, e o mundo tinha boas expectativas
para o ano que se iniciava1. O que se seguiu surpreendeu o planeta com uma situação de
calamidade inesperada, qual seja, o da pandemia da Coronavirus Disease 2019 (Covid-19),
com mais de 24.421.364 casos e 831.764 mortes até meados de julho de 2020. No Brasil,
tem-se, até o mesmo período, mais de 3.761.391 casos e 114.250 mortes pela doença2. O
caos criado por essa tragédia global impactou as vidas dos indivíduos de diversas formas.
Tornou-se necessário (re)pensar, (re)planejar e (re)signif‌icar, em tempo recorde, as vidas
das pessoas, seja no âmbito pessoal, no espiritual ou no prof‌issional.
1. SHAH, J. P. The impact of Covid-19 on Head and Neck surgery, education, and training. Head & Neck, v. 42, n. 6,
p. 1344, 2020.
2. BBC News. Coronavírus: o mapa que mostra o alcance mundial da doença. 10 jul. 2020. Disponível em https://
www.bbc.com/portuguese/internacional-51718755. Acesso em: 28.08.2020.
INESSA BERALDO DE ANDRADE BONOMI E MARCOS PAULO DE OLIVEIRA CORRÊA
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A Covid-19 se espalhou aceleradamente por todos os continentes, o que contribuiu
para a emergência de um desequilíbrio global sem precedentes. Uma crise na saúde, prin-
cipalmente no setor público, foi instaurada, o que gerou a necessidade da mobilização
de recursos humanos e materiais para o seu embate. A vida cotidiana foi interrompida,
trazendo a necessidade de reestruturação e adaptação de todo o sistema da saúde e dos
próprios prof‌issionais que atuam na área. Os atendimentos habituais nos hospitais foram
readequados para o manejo de pacientes suspeitos ou conf‌irmados com a Covid-19. As
cirurgias eletivas foram suspensas. Os atendimentos ambulatoriais cotidianos foram
adiados. A grande maioria dos leitos hospitalares foram ocupados por esses pacientes.
Hospitais improvisados (de campanha) foram criados para acomodar o avanço da
pandemia3. Necrotérios temporários, inclusive arranjados em caminhões refrigerados,
puderam ser observados, e o que vem a seguir e quando isso termina é desconhecido4.
O Conselho Federal de Medicina (CFM), em março de 2020, aconselhou os médicos
brasileiros a permanecerem em seus postos de trabalho, pois, nessa posição, exerceriam
a “sua função mais relevante no papel de guardiães da vida”5. O contexto brasileiro, con-
tudo, vem apresentando dif‌iculdades na mobilização dos recursos mais básicos, como
os de proteção individual, que são fundamentais para a segurança contra o risco elevado
de contágio das equipes que passaram a lidar com os pacientes6.
A pandemia também trouxe um cenário de vulnerabilidade que pode ser entendida
como def‌iciência de uma parte ou de um grupo, em virtude de uma relação ou condição
atípica que expresse a desproporcionalidade7. Essa vulnerabilidade vem atingindo não
só os pacientes, acometidos por uma doença ainda pouco explorada, mas também os
médicos, cada vez mais expostos a um inimigo invisível. O médico não se esquiva e se
confronta, em seu cotidiano, com um excesso de informação, com as incertezas e com
um cenário de insegurança quanto às condutas a serem seguidas, diante da ausência de
evidências científ‌icas sólidas, de recursos escassos e, além disso, de expectativas angus-
tiadas dos pacientes e de seus familiares8.
Esse panorama caótico, desconhecido e multifacetado, teve impactos diretos no
treinamento dos residentes nas áreas clínicas e cirúrgicas, devido à suspensão, transfe-
rências e adaptações, em muitos casos, às pressas, de muitas atividades dos programas.
Como consequência, f‌irmou-se a necessidade de compatibilizar os objetivos educacionais
dos programas de residência médica com a tarefa de contribuir para o enfrentamento da
pandemia. A incorporação de novos métodos e tecnologias educacionais, contrapondo-se
ao ensino tradicional, a maior preocupação quanto à proteção dos residentes e dos pre-
ceptores, as constantes necessidades de mudanças nas escalas, o adiamento de cirurgias
3. ROMÃO, G. S.; SÁ, M. F. A Residência Médica em tempos de Covid-19. Femina, v. 48, n. 5, p. 287-290. 2020.
4. SHAH, 2020.
5. CFM – Conselho Federal de Medicina. Manifestação do Conselho Federal de Medicina em relação à pandemia de
Covid-19. 25 mar. 2020. Disponível em: https://bit.ly/30edPRS. Acesso em: 31,07.2020.
6. CALMON, T. V. L. As condições objetivas para o enfrentamento ao Covif-19: abismo social brasileiro, o racismo,
e as perspectivas de desenvolvimento social como determinantes. NAU Social, v. 11, n. 20, p. 131-136, 2020.
7. SÁ, M. F. J.; NAVES, B.; SOUZA, I. Direito e medicina: autonomia e vulnerabilidade em ambiente hospitalar. In-
daiatuba: Editora Foco, 2018. p. 36-37.
8. EYAL, G. et al. The Physician-Patient Relationship in the Age of Precision Medicine. Genetics in Medicine, v. 21,
n. 4, p. 813-815, 2019.

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