Secularidade e sacralidade na criação musical contemporânea: tensões e transações

AutorAlfredo Teixeira
CargoDoutorado em Antropologia Política e Professor Auxiliar na Universidade Católica Portuguesa
Páginas228-258
http://dx.doi.org/10.5007/2175-7984.2017v16n36p228
228 228 – 258
Secularidade e sacralidade
na criação musical contemporânea:
tensões e transações
Alfredo Teixeira1
Resumo
Depois de um período em que a secularização, como modelo explicativo – linear e teleológico
–afirmou-se hegemonicamente nas ciências sociais, tornou-se necessário encontrar outras vias
de acesso aos lugares de reconfiguração do religioso, no contexto das múltiplas modernidades.
Nesta situação, tornou-se decisivo reaproximar o olhar científico, em diferentes escalas, dos luga-
res em que estão a ser construídas novas relações entre a esfera do religioso e os outros mundos
sociais, mediadas pelas deslocações do sagrado. O presente artigo explora o terreno da criação
musical contemporânea como laboratório para a descoberta destas novas configurações.
Palavras-chave: Secularidade. Sacralidade. Música. Religião.
Introdução
Parte dos discursos sociológicos sobre a secularização, hegemônicos até
à década de 90 do século passado, enfrentou o risco de se tornar uma teoria
da religião legitimadora das narrativas da modernidade. O uso musculado
desse modelo conheceu o seu revés à medida que se fragilizaram as próprias
representações de modernidade. Continuando a categoria de secularização a
descrever trajetórias de mudança decisivas nas sociedades, perdeu, no entanto,
o seu caráter linear e teleológico. No terreno das práticas culturais que descre-
vem as modernidades múltiplas, a esfera religiosa e os outros mundos sociais
desdobram-se em jogos de transação, entre secularidades e sacralidades, na
construção de sentidos e valores. Os universos da criação musical contempo-
rânea oferecem-se como um laboratório privilegiado para a moldagem de um
modelo de secularização em modo menor (PIETTE, 1992).
1 Doutorado em Antropologia Política e Professor Auxiliar na Universidade Católica Portuguesa, onde é Diretor
do Instituto de Estudos de Religião. É investigador do Centro de Estudos de Teologia e Estudos de Religião e do
Centro de Estudos de História Religiosa (UCP).
Política & Sociedade - Florianópolis - Vol. 16 - Nº 36 - Maio./Ago. de 2017
229228 – 258
1 Arquipélagos teóricos
No breve ensaio intitulado “Excurso”, bem como na sua “Sociologia da
religião” – texto incluído em “Economia e Sociedade” – Weber parte da sua
tese, já muito glosada, acerca da atividade religiosa como origem de processos
de racionalização, em uma trajetória de superação do estádio mágico. Neste
percurso, Weber procura mostrar que as relações religião-mundo estão habita-
das por uma lógica de “tensão” e “conito”. Esta lógica é particularmente vi-
sível em cinco esferas da realidade, registo em que as anidades dos diferentes
domínios sociais são, elas próprias, geradoras de tensões: a esfera econômica,
a esfera da política, o domínio da erótica, o que Weber designa de esfera inte-
lectual e, por m, a esfera estética.
Max Weber parte da observação genérica de que das transações entre reli-
gião e estética nasceram algumas das mais inuentes criações da humanidade.
Mas, à medida que a arte foi construindo a sua autonomia, desenvolveram-se
tensões que Weber vê cristalizadas no díptico “conteúdo/forma”. Por um lado,
as religiões de salvação desenvolveram-se historicamente como conjuntos
complexos de atribuição de sentido à experiência do mundo (conteúdo). Por
sua vez, a arte, emergindo com funções análogas, conheceu novos contextos
que facilitaram a emancipação da forma. A moderna possibilidade de desarti-
culação entre forma e conteúdo, segundo Weber, encontra no esteticismo o seu
mais claro testemunho. Com este conceito, Max Weber procura interpretar
as situações culturais em que a hipervalorização da experiência estética do
mundo pode ser simultaneamente um substituto da religião e um refúgio
intelectual para os desiludidos dos excessos racionalistas. O esteticismo se-
ria, assim, uma espécie de “redenção intramundana”. De acordo com Weber
(1971, p. 554 ss; 1985, p. 365), o esteticismo substitui os juízos éticos por
juízos estéticos.
A chamada Escola de Frankfurt tornou-se, nos circuitos do pensamento
contemporâneo, uma bandeira do reformismo moderno, no sentido de recu-
peração de uma modernidade “espiritual”, em detrimento dessa modernidade
“material” radicalizada e reduzida ao mercado e aos impulsos da tecnociência.
No campo da estética musical, esta herança crítica encontra no pensamento
de eodor Adorno as suas referências mais importantes. Por isso, ele se tor-
nou uma inuência fundamental na vanguarda do pós-guerra, nessa linha de

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