Língua portuguesa

AutorClaudia Simionato, Eloy Gustavo de Souza e Fernanda Franco
Páginas1-111
Texto 1 para responder às duas questões seguintes
Uma página em branco
1Uma página em branco a oferecer todas as
possibilidades, o papel aceita tudo. A angústia por haver
todas essas possibilidades, não se toca ainda coisa alguma.
4Então escolher uma entre as possibilidades, o que traça um
limite. Escrever é traçar um limite. Escolhe-se uma primeira
letra, U; uma primeira palavra, UMA; uma primeira frase,
7título: UMA PÁGINA EM BRANCO.
Como se escolhe uma camisa, um lme, um itinerário
de viagem, um partido político, incorpora-se um destino.
10 Como se escolhe uma entre as mulheres possíveis e com ela
se irá gastar os melhores anos da vida.
Pronto, está escolhido, tipos negros mancham agora
13 uma página branca, comprometida, é só seguir o o. Mas,
que o?
Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa e colocou-se na
16 máquina uma página em branco com todas as possibilidades
possíveis. Como, lá fora, um universo cheio de vidas
escolhíveis. Então que se encarne numa dessas vidas, vias,
19 os. Que se ponha lá entre as vozes, os gritos, os risos.
Fazer o percurso das ruas, artérias, os bares, as favelas, a
prostituição, os rituais, os crimes. Ou, quem sabe? — apenas
22 permanecer numa casa, caixa, onde no quarto durmam
crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama,
esperando, certa mulherzinha.
25 De qualquer modo é preciso que entre os dedos, a
mente, as teclas não se interponham mais do que uma
membrana, um cordão líquido, umbigo. E, escorregando,
28 outras palavras negras avancem mais na oresta do branco,
teçam lá dentro o tal o.
Um livro que, dentro de nós, já poderá estar escrito.
31 Como se cada homem já nascesse com seu próprio livro.
Deixar pois o itinerário a este acaso necessário,
predestinado. Que a mulher, a viagem, a estória e a História
34 de certo modo o escolham, ao invés de serem escolhidas.
Livrem-no de escolher por si mesmo entre todas as
hipóteses do possível. E libertem-no de qualquer
37 possibilidade porventura escolhida.
SANT’ANNA, Sérgio. O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro.
Companhia das Letras, 2014
(Diplomacia – 2020 – IADES) Com base nos aspectos linguísticos e semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
(1) Em textos literários, por vezes infringem-se as regras da gramática normativa. No mencionado texto, um exemplo
de não observância das regras gramaticais pode ser encontrado na linha 13, no uso da vírgula após “Mas”, e outro
exemplo pode ser encontrado na linha 32, na ausência de vírgulas que isolem a conjunção “pois”.
(2) A partícula “se” em “Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa” (linha 15) funciona como índice de indeterminação
do sujeito.
1. línguA portuguesA
Claudia Simionato, Eloy Gustavo de Souza e Fernanda Franco*
* Claudia Simionato (comentou 2013, 14, 15, 16, 17 e 19), Eloy Gustavo (comentou 2010, 11 e 12) e Ivo Yonamine (comentou
as questões de 2018 e 2020).
EBOOK COMO PASSAR DIPLOMACIA 5ED.indb 1EBOOK COMO PASSAR DIPLOMACIA 5ED.indb 1 05/04/2022 15:58:2305/04/2022 15:58:23
CLAUDIA SIMIONATO, ELOY GUSTAVO DE SOUZA E FERNANDA FRANCO
2
(3) O trecho “Ou, quem sabe? — apenas permanecer
numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças,
no fogão haja um resto de comida e, na cama, espe-
rando, certa mulherzinha.” (linhas de 21 a 24) poderia
ser reescrito, mantendo-se a correção gramatical e os
sentidos do texto, da seguinte forma: Ou, quem sabe,
apenas permanecer em uma casa-caixa, cujos quartos
durmam crianças, em cujo fogão haja um resto de
comida e em cuja cama haja uma certa mulherzinha
esperando.
(4) Na linha 34, o pronome “o” pode ter como referente
tanto o nome “homem” (linha 31) quanto o sintagma
“o itinerário” (linha 32); em ambos os casos, a coe-
rência do texto é preservada.
1: Errado. Inicialmente, o gabarito foi dado como certo. Após os recur-
sos, o item foi alterado para “errado”, com a seguinte justicativa pela
banca: “de acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa,
‘mas’, como advérbio, ante uma determinada situação, enfatiza sur-
presa, espanto ou admiração. No caso em apreço, o vocábulo tem essa
função. Logo, pode ser sucedido de vírgula”.
2: Certo. A partícula “se” opera como índice de indeterminação do
sujeito (IIS) na oração mencionada, uma vez que o verbo “estar” não
se refere a uma pessoa determinada, mas, sim, a uma gura que pode
ser qualquer um, desde que diante de uma página em branco. Quanto
à classicação do verbo “estar”, a depender do gramático, pode ser
considerado um verbo de ligação mais predicativo (também chamados
de “verbos predicativos”, no dicionário de regência verbal de Celso Luft
e no de Francisco Fernandes; para estes, o verbo “estar”, então, está
acompanhado do predicativo locativo “aqui”, aquele que dá ideia de
lugar) ou um verbo intransitivo acompanhado de um adjunto adverbial
(também chamado de “transitivo adverbial” por Adriano da Gama Kury).
Importante lembrar que o IIS é empregado com verbos intransitivos,
transitivos indiretos ou de ligação.
3: Errado. Nem o sentido original nem a correção gramatical são
mantidos na reescrita sugerida. A composição “casa-caixa” perde o
sentido da enumeração original “... permanecer numa casa, caixa, onde
no quarto...”, em que o narrador sugere uma das muitas possibilidades
de delimitação de universo narrativo (uma casa, uma caixa, um quarto,
em oposição contextual a ruas, artérias, bares) também “cheio de vida”,
ainda que num espaço do cotidiano, supostamente mais banal. Quanto
à forma, faltou a preposição “em” antes do pronome relativo “cujos”,
devido à regência do verbo “dormir”: “em cujos quartos durmam
crianças” (dormir em). Seria bom também haver vírgulas em “em cuja
cama”, mas não é obrigatório, bem como uma vírgula antes da oração
reduzida de gerúndio “esperando”.
4: Errado. Inicialmente, o gabarito foi dado como certo. Após os recur-
sos, o item foi alterado para “errado”, com a seguinte justicativa pela
banca: “dada a sequência do texto, apenas a referência a ‘o homem’
seria possível, conforme as substituições feitas no seguinte trecho:
‘Um livro que, dentro de nós, já poderá estar escrito. Como se cada
homem já nascesse com seu próprio livro. Deixar pois o itinerário a
este acaso necessário, predestinado. Que a mulher, a viagem, a estória
e a História de certo modo o escolham, ao invés de serem escolhidas.
Livrem-no (o homem) de escolher por si mesmo entre todas as hipó-
teses do possível. E libertem-no (o homem) de qualquer possibilidade
porventura escolhida’.”
Gabarito 1E, 2C, 3E, 4E
(Diplomacia – 2020 – IADES) Considerando as ideias e os sen-
tidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
(1) Como é usual em textos literários, no texto apresen-
tado, observa-se o emprego recorrente de guras de
linguagem, tais como a prosopopeia, presente em “o
papel aceita tudo” (linha 2) e “tipos negros mancham
agora uma página branca” (linhas 12 e 13).
(2) Para o autor do texto, uma página em branco corres-
ponde a “um universo cheio de vidas escolhíveis”
(linhas 17 e 18).
(3) O autor implicitamente apresenta uma crítica a dois
modos de vida distintos: o de quem se envolve com
a criminalidade – em que se faz “o percurso das ruas,
artérias, os bares, as favelas, a prostituição, os rituais,
os crimes” (linhas 20 e 21) – e o de quem se contenta
com a mesmice e a previsibilidade – em que se per-
manece “numa casa, caixa, onde no quarto durmam
crianças, no fogão haja um resto de comida e, na
cama, esperando, certa mulherzinha” (linhas de 22 a
24).
(4) Nos dois últimos parágrafos do texto (linhas de 30 a 37),
o autor sugere que se deve deixar-se levar pelas escolhas
que a vida faz, visto que, embora não se perceba, cada
homem já nasce com o próprio destino traçado.
1: Errado. Na segunda frase mencionada: “tipos negros mancham agora
uma página branca” (linhas 12 e 13), não há personicação ou pro-
sopopeia, gura de linguagem que consiste em atribuir características
humanas a seres inanimados, uma vez que “tipos negros” se referem
aos caráteres tipográcos usados na prensa e em máquinas de escrever
e cuja nalidade é, de fato, manchar “a página em branco”. O sentido
é, portanto, denotativo, e não conotativo ou gurado.
2: Certo. A conjunção “como” (l. 17) estabelece a comparação (ou
correspondência) com o período anterior, em que é mencionada “uma
página em branco com todas as possibilidades possíveis”. Como, lá
fora, a página em branco é um universo cheio de vidas.
3: Errado. A interpretação sugerida extrapola o sentido do texto original,
uma vez que não há nenhuma crítica ou juízo de valor feito nas des-
crições de “possibilidades de vida” para uma narrativa, apresentadas
entre as linhas 20 e 24. Pelo contrário, o narrador arma que ambas
as possibilidades são igualmente válidas – e valorizadas –, pois fazem
parte de “um universo cheio de vidas escolhíveis”.
4: Errado. Ao armar no penúltimo parágrafo do trecho selecionado “Um
livro que, dentro de nós, já poderá estar escrito. Como se cada homem
nascesse com seu próprio livro”, o autor não trabalha com a ideia de que
o homem nasça com “o próprio destino já traçado”. Tomar destino por
livro já congura uma extrapolação, mas, pra além disso, é importante
atentar aqui para o fato de que, conforme traz Celso Cunha em sua gra-
mática, há um efeito estilístico no uso do futuro do presente (já poderá)
no lugar do presente (já pode): ele tem o efeito justamente de transformar
o certo em possível – interpretação corroborada, também, pelo uso da
locução conjuntiva “como se” no período seguinte, que também arma
a hipótese. No trecho original, então, o que está em jogo é justamente
a possibilidade da escolha (e percebida, uma vez que o autor evidencia
isso) de uma direção narrativa na ação da escrita, submetida, claro, a
um “acaso necessário”, e não a um destino já traçado.
Gabarito: 1E, 2C, 3E, 4E
EBOOK COMO PASSAR DIPLOMACIA 5ED.indb 2EBOOK COMO PASSAR DIPLOMACIA 5ED.indb 2 05/04/2022 15:58:2305/04/2022 15:58:23
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1. LÍNGUA PORTUGUESA
Texto 2 para responder às duas questões seguintes
1“Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas etc.”
Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá
muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia
4apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a
imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando
de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”.
7Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem
que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro,
recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande
10 encyclopédie, letra J, a m de consultar o artigo relativo a Java e
a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao m de alguns
minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda,
13 colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo
malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita
em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
16 A Enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal
língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o
alfabeto, a sua pronunciação gurada e saí. Andei pelas ruas,
19 perambulando e mastigando letras.
Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em
quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e
22 escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória
e habituar a mão a escrevê-los.
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para
25 evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no
quarto a engolir o meu “a-b-c” malaio, e, com tanto anco levei o
propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente.
28 Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do
mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o
encarregado dos aluguéis dos cômodos:
31 — Senhor Castelo, quando salda a sua conta?
Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:
— Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser
34 nomeado professor de javanês, e...
Por aí o homem interrompeu-me:
— Que diabo vem a ser isso, senhor Castelo?
37 Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:
— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?
40 Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida
e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:
— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são
43 umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor
sabe isso, senhor Castelo?
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a
46 procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente
propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a
resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei
49 à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês.
Não z grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar
o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de
52 língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliograa e
história literária do idioma que ia ensinar.
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao
55 doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, barão de Jacuecanga,
à rua Conde de Bonm, não me recordo bem que número. É
preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o
58 meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, quei
sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e
responder “como está o senhor?” — e duas ou três regras de
61 gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.
EBOOK COMO PASSAR DIPLOMACIA 5ED.indb 3EBOOK COMO PASSAR DIPLOMACIA 5ED.indb 3 05/04/2022 15:58:2305/04/2022 15:58:23

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